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Angola

Em Berlim, Rafael Marques recebe Prémio Integridade e dedica-o a Nito Alves

Ativista angolano dos direitos humanos Rafael Marques de Morais é agraciado com o Prémio Integridade pela Transparência Internacional, em Berlim, em reconhecimento à sua luta contra a corrupção em Angola.

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Rafael Marques na entrada do Café Moskau, em Berlim, onde recebeu o Prémio Integridade

Sob céu azul, num impecável terno verde-escuro e de muito bom humor, o jornalista e ativista angolano dos direitos humanos, Rafael Marques de Morais, chegou ao evento da Transparência Internacional, onde recebeu o Prémio Integridade em reconhecimento à sua luta contra a corrupção em Angola.

Mas o sorriso fácil logo dá lugar à seriedade dos temas que o trouxeram aqui. Rafael Marques dedicou o prémio a Nito Alves, um jovem de 17 anos detido por supostamente ter chamado o Presidente de ditador, "porque me faz lembrar também a minha juventude. Também estive detido por ter chamado o Presidente num texto de ditador e promotor da corrupção em Angola," lembra e dispara em seguida: "estava certíssimo, assim como o Nito Alves também está certo"

Publikum bei der Preisverleihung von Trasnparency International

Público acompanha o evento em comemoração dos 20 anos da Transparência Internacional, encerrado com a entrega do Prémio Integridade

Ativismo começou na cadeia, em Viana

Em 1999, numa das muitas vezes em que o ativista esteve detido, passou 42 dias na prisão sem ter apresentada uma queixa formal contra si.

Rafael Marques ainda se lembra do dia em que foi preso em sua casa: "tinha sete armas apontadas contra mim, inclusive uma pistola nas têmporas, e isso provava mais do que nunca que de fato estávamos a viver num regime ditatorial."

O ativista angolano conta ainda que, por vários dias, esteve confinado numa cela solitária, "onde tinha por companhia as baratas."

"São situações por que passamos e que nos fazem lembrar porque lutamos, porque queremos uma sociedade diferente para as novas gerações," conclui.

Rafael Marques

Em Berlim, o jornalista e ativista angolano dos direitos humanos, Rafael Marques de Morais (foto), que dedicou o Prémio Integridade a Nito Alves. "Também estive detido por ter chamado o Presidente num texto de ditador e promotor da corrupção em Angola”

Segundo Rafael Marques, foi nesta cadeia, no município de Viana, que ele presenciou graves violações dos direitos humanos. Rafael diz ainda considerar um privilégio a passagem pela cadeia, "para compreender o nível de desumanidade do atual regime, que continua no poder há 38 anos, e aquilo que é necessário fazer para que de fato tenhamos em Angola um governo que respeita e serve os seus cidadãos," pontua.

As denúncias de abandono e morte dos detentos por inanição e consequentes doenças, feitas por Rafael Marques, levaram ao encerramento temporário da prisão. A partir daí, passou a ser chamado de ativista dos direitos humanos, causa que assumiu para si.

"Não porque tivesse querido ser ativista dos direitos humanos, mas porque tudo fiz para denunciar esses casos que ocorriam na prisão - o estado miserável, desumano praticamente e que persiste até hoje nas cadeias angolanas – e que me levaram a orientar a minha acção também para a defesa daqueles que de facto estavam completamente ignorados e estavam a morrer por total negligência e abuso por parte das autoridades," descreve.

Preisverleihung von Trasnparency International

Prêmio Integridade é atribuído pela Transparência Internacional desde 2000 em reconhecimento à coragem e determinação dos que lutam contra a corrupção no mundo

Reconhecimento internacional

Há vários anos, as denúncias de corrupção e violação dos direitos humanos feitas por Rafael Marques de Morais repercutem internacionalmente.

A maioria dos casos envolve negócios milionários, altos representantes de instituições governamentais, entre os quais o próprio Presidente José Eduardo dos Santos e diversos generais, além de investidores estrangeiros.

Contra o ativista pesam 11 queixas-crime apresentadas pelos que ele apontou como corruptos. Mas o ativista angolano dos direitos humanos não se deixa intimidar.

"Não tenho medo desses generais porque estou a provar que eles são tão falíveis quanto os outros cidadãos e que terão que responder, tarde ou cedo, pelos seus crimes. Hoje sou eu a responder, mas amanhã serão eles," garante.

Rafael Marques de Morais revela ainda que depois de depor sobre todos esses casos recebeu o apoio de "um grupo de jovens que me foi prestar solidariedade. Dentre esses jovens estava o Nito Alves."

Na avaliação de Rafael Marques, ficou claro que "há uma nova geração angolana que não tem medo e quer uma sociedade diferente".

João Paulo Batalha

João Paulo Batalha, membro da direção da Transparência e Integridade, que nomeou Rafael Marques de Morais para o Prémio Integridade

Corrupção em Angola

Angola figura na posição 157 no índice de percepção da corrupção da Transparência Internacional e é considerado um dos países mais corruptos do mundo.

João Paulo Batalha é membro da direção da Transparência e Integridade, capítulo português da Transparência Internacional, que nomeou Rafael Marques de Morais para o Prémio Integridade.

Para Batalha, o que destaca o Rafael Marques "é a coragem e a peristência que ele tem demonstrado ao longo de vários anos não só de denúncias mas também de investigação informada do problema da corrupção em Angola – nomeadamente ao que toque os negócios com diamantes e petróleo."

Ouvir o áudio 04:06

Em Berlim, Rafael Marques recebe Prémio Integridade e dedica-o a Nito Alves

Mais do que isso, Rafael Marques de Morais foi indicado e escolhido para receber o Prémio Integridade porque "tem feito esse trabalho debaixo de uma pressão e perseguições constantes. Já foi preso, espancado, e nada o desanima," enumera João Paulo Batalha e conclui: "isso é verdadeiramente admirável e é um exemplo para todas as pessoas que no mundo inteiro combatem a corrupção".

Já o jornalista e ativista angolano dos direitos humanos, Rafael Marques de Morais, destaca que o prémio é um sinal claro para outros ativistas, pois "demonstra que não é crime denunciar a corrupção, pelo contrário, baseio o meu trabalho nas leis angolanas, não é de acordo com algum pressuposto ocidental como muitas vezes os governantes corruptos querem fazer crer".

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