1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

NOTÍCIAS

Do choque à incerteza: o mundo reage à eleição de Donald Trump

Vitória do republicano surpreendeu o mundo. Na política, as reações variam entre a satisfação e a apreensão. Futuro das relações externas dos EUA ainda é uma incógnita.

O 45º Presidente eleito da história dos Estados Unidos da América, Donald Trump promete ser "o Presidente de todos os americanos” e garante que vai "duplicar o crescimento e ter a economia mais forte do mundo”. Ao mesmo tempo, o novo Presidente norte-americano promete que os Estados Unidos vão "dar-se bem com todas as Nações que queiram dar-se bem" com Washington.

O caminho exato para cumprir estas promessas ainda não é conhecido, embora o magnata republicano garanta que tem um plano. Para já, as opiniões dividem-se quanto ao futuro do mundo com Donald Trump na liderança dos Estados Unidos.

Manutenção das relações bilaterais em África

No continente africano, o Presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza, foi um dos primeiros a dar os parabéns a Donald Trump por vencer a corrida à Presidência dos Estados Unidos - um dos países que aplicou sanções contra membros do Governo do Burundi, acusado pela ONU de graves violações de direitos humanos. "Em nome do povo do Burundi, parabenizamos Trump cordialmente. A sua vitória é a vitória de todos os americanos", disse Pierre Nkurunziza.

Outros líderes africanos felicitaram o próximo Presidente norte-americano, manifestando o desejo de que as relações bilaterais dos seus países se mantenham após a vitória do candidato republicano. Apesar de Trump ter garantido durante a campanha que, se eleito, mudaria alguns aspectos da política externa norte-americana, os líderes africanos acreditam que os vínculos entre os EUA e o continente não serão afetados pela eleição.

"Os laços que unem o Quénia e os Estados Unidos são próximos e fortes. A nossa amizade perdurará", afirmou o Presidente do Quénia, Uhuru Kenyatta. O chefe de Estado queniano destacou que a vitória do antagónico Trump foi uma "mensagem clara do povo americano".

kenia US Wahlen TV Berichterstattung (AFP/Getty Images/T. Jones)

Grupo de etnia masai atento às notícias sobre as eleições norte-americanas, perto da localidade de Saikeri, no Quénia

Também Paul Kagame, Presidente do Ruanda, um dos principais parceiros dos Estados Unidos no continente africano, e o Presidente do Senegal, Macky Sall, felicitaram a vitória de Trump, expressando o desejo de manter boas relações com o Governo norte-americano.

Na África do Sul, o Presidente Jacob Zuma afirmou que espera poder trabalhar com o próximo Presidente dos Estados Unidos para "promover a paz, segurança e prosperidade" no mundo e no continente africano.

O candidato republicano foi ainda felicitado através da rede social Twitter por outros líderes africanos, tais como o Presidente do Uganda, Yoweri Museveni, do Gana, John Mahama, e da Tanzânia, John Magufuli.

PALOP felicitam Trump

Em Moçambique, o partido no poder, a FRELIMO, congratulou o candidato republicano através do porta-voz, Edmundo Galiza Matos, que espera um Presidente diferente, "um pouco mais comedido, que ajude a melhorar as relações com o mundo”. "O que nós achamos é que África, em geral, a região da África Austral em particular e Moçambique devem ter dias melhores com os Estados Unidos da América”, considera Galiza Matos.

Ivone Soares, do maior partido da oposição em Moçambique, a RENAMO, também congratula Donald Trump, embora esperasse outro resultado. "Não foi desta vez que tivemos uma mulher Presidente, mas acreditamos que o sonho do mundo não morre por aqui”, diz a líder da bancada parlamentar da RENAMO.

Também de Angola chegam felicitações a Donald Trump, na voz do Presidente José Eduardo dos Santos. Numa nota de imprensa, o chefe de Estado angolano diz que espera, com o novo Presidente norte-americano, um novo período de "maior diálogo e cooperação internacional."

Ouvir o áudio 03:45

Líderes africanos saúdam Donald Trump pela vitória nas presidenciais dos EUA

Já a pensar nas eleições gerais marcadas para 2017, o maior partido da oposição em Angola, a UNITA, diz que é preciso olhar para esta vitória de Trump e ver como é importante alternar o poder para ter estabilidade.

Em Cabo Verde, o Presidente Jorge Carlos Fonseca saudou a eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos e frisou que não acredita que a mudança na administração norte-americana altere as "boas" relações de cooperação entre os dois países. "Sobretudo nós temos em conta o facto de existir um lastro histórico, cultural e humano entre Cabo Verde e os Estados Unidos, que constitui uma base muito sólida de relações seculares”, sublinhou.

Jorge Carlos Fonseca recusou comentar as afirmações de Donald Trump, que, durante a campanha eleitoral, prometeu expulsar todos os imigrantes ilegais do país. Comentou apenas que a comunidade cabo-verdiana nos Estados Unidos da América é vasta e é constituída sobretudo por gente trabalhadora e honesta.

Em São Tomé e Príncipe, o novo chefe da diplomacia, Urbino Botelho, também não espera mudanças na cooperação entre São Tomé e Washington, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. O ministro está expectante em relação ao novo Presidente norte-americano, considerando que "ainda há uma incógnita”, uma vez que Trump não fez "grandes referências a África durante a campanha”. "Uma coisa é certa”, ressalva Urbino Botelho: "Nem tudo aquilo que se diz durante a campanha tem efeitos práticos concretos quando se tem a veste da governação. Por isso, pensamos que não haverá grandes mudanças”.

Extrema-direita satisfeita

Um pouco por todo o mundo, as opiniões dividem-se. De um lado, os líderes dos partidos de extrema-direita europeus, com esperança num contágio ao seus países do sentimento "anti-sistema” norte-americano. Do outro, vários dirigentes mundiais e instituições, que já prevêem dificuldades nas relações com Washington. Todos parecem concordar apenas num ponto: a mudança.

Para alguns, a vitória de Donald Trump é sinal de uma mudança positiva. É o caso da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, uma das primeiras vozes da Europa a felicitar os Estados Unidos pelo resultado das eleições, ainda antes de a vitória ser oficialmente declarada. No seio do seu partido, a Frente Nacional, acredita-se que perante o cenário norte-americano, é possível uma vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais em França, no próximo ano.

Brexit Reaktionen Archivbild Marine Le Pen (Reuters/H.-P. Bader)

Marine Le Pen, líder da Frente Nacional

 "Os americanos votaram e rejeitaram o status quo”, disse a líder da extrema-direita em conferência de imprensa, esta quarta-feira (9.11). Le Pen considera que "a eleição de Donald Trump é uma boa notícia para França” se o novo Presidente mantiver alguns compromissos: "A rejeição da globalização selvagem, o apaziguamento das relações internacionais - especialmente com a Rússia – e o distanciamento das guerras que resultam nas ondas migratórias de que somos vítimas são benéficos para França”.

Um sentimento partilhado pelos líderes de partidos de extrema-direita na Holanda, Itália, Áustria, Reino Unido e Rússia, que esperam um contágio daquilo que classificam como uma vitória "histórica”, uma "revolução” e uma "vingança do povo” norte-americano.

A dar voz a este sentimento está também a direita radical da Alternativa para a Alemanha (AfD), que acredita que a mudança de poder chegará também ao seu país. O êxito de Trump, diz a AfD, "é um sinal de aviso a todo o sistema".

Dirigentes europeus mantêm cooperação mas lançam alertas

Por outro lado, os líderes políticos alemães olham de forma mais cautelosa para a tão aclamada "mudança”. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Frank-Walter Steinmeier, antevê "relações mais difíceis” com os Estados Unidos, mas sublinha que a Alemanha não pode "desistir das relações transatlânticas”. "O resultado das eleições não é aquele que a maioria das pessoas na Alemanha desejava, mas temos de o respeitar”, frisa Steinmeier. A cooperação com os Estados Unidos deverá manter-se, mas o chefe da diplomacia alemã alerta para uma política externa "imprevisível” com Donald Trump.

A chanceler alemã, Angela Merkel,  já sublinhou que a parceria Berlim-Washington deverá continuar a respeitar alguns princípios, já que "a Alemanha e os Estados Unidos estão unidos por valores”.

Deutschland Reaktion US-Wahl - Bundeskanzlerin Angela Merkel (Reuters/A. Schmidt)

Angela Merkel à chegada à conferência de imprensa sobre o resultado das eleições nos EUA

"Democracia, liberdade, respeito pela lei e a dignidade humana, independentemente da origem, da cor, religião, sexo, orientação sexual ou opinião política. Com base nestes valores, ofereço uma cooperação estreita ao futuro Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump”, anunciou Angela Merkel, em conferência de imprensa.

Também a primeira-ministra britânica, Theresa May, assegurou que o Reino Unido e os Estados Unidos continuarão a ser "aliados fortes e próximos". Já o Presidente francês, François Hollande, garantiu que França vai manter conversações com Washington, com "vigilância e franqueza", salientando que a vitória de Trump "abre um período de incerteza".

Previsões mais pessimistas têm as instituições europeias. O presidente do parlamento Europeu, Martin Schulz, já afirmou que "será difícil" trabalhar com o futuro Presidente norte-americano. Mais comedidos nas palavras, os presidentes do Conselho Europeu, Donald Tusk, e da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, apelaram ao reforço das relações transatlânticas.

Rússia espera melhorias; China e Irão rejeitam ameaças

A contrastar com os recados cautelosos de alguns líderes europeus, surge o optimismo de dirigentes como Vladimir Putin. O Presidente russo espera uma melhoria das relações entre os dois países lembrando que, durante a campanha, Donald Trump falou "em recuperar as relações entre a Rússia e os Estados Unidos”. Putin sabe que "o caminho não será fácil” mas diz que as autoridades russas estão "dispostas a fazer tudo para que as relações regressem a um caminho estável de desenvolvimento.”

Donald Trump toma posse em janeiro como sucessor de Barack Obama e, para já, "incerteza” parece ser a palavra de ordem na antevisão dos seus planos.

Ouvir o áudio 04:02

Reações políticas: o que muda com Trump?

Entretanto, já surgem respostas a ameaças feitas durante a campanha eleitoral. É o caso da China, que desvaloriza a hipótese do início de uma guerra comercial com Pequim avançada por Donald Trump, acreditando no desenvolvimento das relações bilaterais. E oIrão garante que o acordo nuclear de 2015 entre Teerão e as potências mundiais não pode ser anulado, tal como proposto pelo novo Presidente norte-americano, uma vez que o acordo foi aprovado pela ONU.

Já a Turquia anunciou que a relação estratégica com Washington está à margem da pessoa que ocupa a Casa Branca, mas  quer que Donald Trump reconheça a importância estratégica do país, com ênfase no combate ao terrorismo.

* Com a colaboração de Guilherme Correia da Silva, Leonel Matias (Maputo), Nélio dos Santos (Cidade da Praia), Juvenal Rodrigues (São Tomé e Príncipe)

Leia mais

Áudios e vídeos relacionados