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Angola

Crise financeira deixa estudantes angolanos por conta própria e risco em Portugal

Dos cerca de 4000 angolanos que estudam em Portugal, muitos tiveram que abandonar os cursos universitários devido a dificuldades financeiras. Entraves impedem a maioria dos pais enviar dinheiro aos seus filhos.

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Estudantes universitários em Lisboa

Walter Sousa não quer expor-se. Mas disse à DW África que veio para Portugal fazer o curso na área dos Sistemas de Informação. A dada altura, em 2016, devido à persistente dificuldade de transferência de dinheiro em Angola, teve forçosamente que desistir do mestrado. Agora trabalha com o objetivo de juntar dinheiro suficiente para acabar os estudos com segurança.

Ele é um dos muitos estudantes angolanos, sem bolsa, que vivem condicionados devido aos atrasos no envio de dinheiro pelos pais, que em Angola têm encontrado obstáculos para transferir dinheiro para Portugal.

Confirma a informação Luís  Victorino, estudante a terminar o mestrado na área da Contabilidade e Finanças, no Instituto Politécnico de Setúbal, também ele vítima deste problema: "Realmente é verdade, há muitos estudantes angolanos aqui que nessa fase da crise estão a optar mesmo por deixar de estudar e trabalhar para juntar recursos e posteriormente darem continuidade aos estudos."

Outro caso de estudante por conta própria é o do jovem Cândido Pedro, conhecido por Dumas, a residir em Portugal desde os 10 anos. Ele está a concluir a sua formação na área de engenharia eletrotécnica e computadores. Também enfrenta muitas dificuldades para concluir o curso, financiado pelo pai reformado em Portugal e por biscatos esporádicos que faz.

Candido Pedro angolanischer Student in Portugal

Cândido Pedro, estudante angolano em Portugal

Fome e ameaças de congelamento de matrículas

Duma conta: "Praticamente dependo só do meu pai e também fui pai entre o terceiro e o quarto anos da faculdade.  Isso também prejudicou-me um pouco, porque tinha que arranjar meios para me sustentar a mim e a minha criança e também suportar as despesas da escola. E também perdi algum foco, algum poder de embalo que já tinha para poder terminar o curso mais cedo. Aí sim, senti e tenho sentido até agora algumas dificuldades."

Não tem bolsa do Governo e nem recebe alguma transferência de Angola, mas Dumas não desistiu, mesmo com as intempéries da vida estudantil. A DW África encontrou situação idêntica no Porto, onde Elizabeth Faustina concluiu o mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde: "Até o último mês em que se deu a crise lembro-me que a última mesada ou ajuda de custo que eu recebi foi enviada através de alguém que veio cá de férias. Inicialmente mandavam-me mil euros, mas eu não gastava os mil euros num mês. Era mesmo por uma questão de segurança e garantia de que não me ia faltar nada. Eu geria da melhor maneira possível."

Luis Victorino angolanischer Student in Portugal

Luis Victorino, presidente da Associação dos Estudantes Angolanos em Portugal

Assim que se deu a crise financeira em Angola, Elizabeth conta que acumulou uma dívida de cerca de 8 mil euros junto à Faculdade. Recebeu avisos de que iriam congelar a matrícula por falta de regularização dos pagamentos. Por falta de dinheiro, houve momentos em que não teve o que comer. Passou quatro dias com fome. "Não tinha nada em casa, nem bolachas, bebia água da torneira. Nem tinha como pagar o passe de transporte", precisa.

Passou momentos difíceis que, de algum modo, a tornaram uma pessoa revoltada na altura. Mas a determinação falou mais alto e conseguiu ultrapassar as barreiras, mesmo sem a ajuda do Estado angolano: "E sacrifiquei-me como sempre. Batalhei. Deu-se a crise em Angola e os meus pais ficaram com dificuldades de enviar dinheiro. Comecei a trabalhar em cafés e, pronto, concluí o meu mestrado e cá estou eu de malas feitas [para regressar a Angola]."

Negociar facilidades com universidades é uma das saídas

A demora nas transferências causou muitos transtornos, levando alguns jovens a regressarem a Angola. Não tinham como provar a sua subsistência. Face a isso, muitos dos que por cá ficaram têm recorrido à Associação dos Estudantes Angolanos, de que é presidente Luís Victorino: "O que nós temos feito é negociar com as universidades e pedir a flexibilidade na cobrança das propinas."

Outra alternativa, segundo Victorino, "é pedir para que os estudantes tenham a oportunidade de fazer requerimentos em que lhes sejam permitidos pagar a propina por prestações para que não sejam impedidos de fazerem exames, inscrições ou de se matricularem para os anos seguintes com dívidas de anos letivos anteriores."

Ouvir o áudio 03:31

Crise financeira deixa estudantes angolanos por conta própria e risco em Portugal

Entre as instituições, destaca a colaboração do Instituto Politécnico de Setúbal, a Universidade Lusófona e a Universidade Autónoma de Lisboa. Por atraso das transferências e falta de dinheiro, a Associação também tem pedido apoio na questão da legalização ao Alto Comissariado para a Imigração, no sentido de facilitar a atribuição ou renovação de títulos de residência aos trabalhadores estudantes.

Por sua vez, adianta, o Consulado da Embaixada de Angola em Portugal tem prestado algum auxílio e promovido atos consulares gratuitos facilitando aos estudantes a renovação da sua documentação.

Luís Victorino adianta que há por parte do Governo de Luanda promessas de que tudo está a ser feito para se resolver este problema de transferências o mais breve possível. É que este problema afeta igualmente os bolseiros devido aos atrasos permanentes no pagamento das bolsas por parte do Governo de Angola.

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