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Moçambique

"Crise" e "Paz": Palavras do ano para os angolanos e moçambicanos, respetivamente

No âmbito da iniciativa do grupo Porto Editora, que se realizou pela primeira vez em Angola e Moçambique, "Crise" e "Paz" foram as palavras do ano, em 2016.

Angola Wahlen Zeitungen (António Cascais)

Vendedor de jornais em Luanda, Angola

Os resultados da votação 'online', que decorreu entre 01 e 31 de dezembro, foram revelados esta quarta-feira (18.01), em Luanda, pela Plural Editores Angola, do grupo Porto Editora.

 A concurso estiveram outras nove palavras, tendo "crise" vencido com 31% dos votos. "A palavra 'crise' marcou o ano de 2016 pela crise económica e financeira que o país atravessa, agravada pela baixa do preço do petróleo no mercado internacional", recordou a editora.

A 04 de maio, em Luanda, no lançamento da iniciativa, que já se realiza anualmente em Portugal e que em 2016 foi alargada a Angola e Moçambique, Paulo Machado Ribeiro, diretor-geral da Plural Editores Angola, antevia esta possibilidade.

"A palavra 'crise' é uma forte candidata sem dúvida alguma. Ainda faltam muitos meses até ao final do ano, mas desde já é a palavra que mais nos surge na cabeça", disse então o responsável da empresa angolana, do grupo Porto Editora.

"Candando" foi a segunda palavra mais escolhida, com 22% dos votos. 

Trata-se de uma palavra cuja origem é da língua nacional quimbundo "kandandu", que significa abraço, cuja grafia (Candando) foi adotada para designar a nova cadeia de hipermercados que a empresária angolana Isabel dos Santos lançou em 2016.

Afrika Angola Candango Supermarkt in Luanda (DW/P. Borralho)

Supermercado Candando - Luanda

"Kixiquila" foi a terceira palavra mais votada, com 12%.

Também se trata de um termo com origem na língua nacional quimbundo, no caso "kixikila", que significa "assentar", numa alusão ao registo dos valores. Na prática, a kixiquila é hoje em dia uma forma de poupança a que muitos angolanos passaram a recorrer devido à crise.

Juntam-se em grupos de amigos, colegas de trabalho ou vizinhos, descontando todos os meses uma parte do salário para uma espécie de cooperativa informal, que distribui mensalmente o "bolo" reunido por cada um dos participantes.

"Paz" é a palavra do ano em Moçambique

"Paz" foi escolhida com 24% numa lista de dez vocábulos finalistas, num contexto de forte agravamento da crise política e militar entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), na sequência da recusa de o maior partido de oposição em reconhecer os resultados das eleições gerais de 2014, alegando fraude, e exigência de governar nas seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.

O líder da oposição, Afonso Dhlakama, encontra-se algures na serra da Gorongosa há mais de um ano e 2016 ficou marcado por confrontos militares entre as partes, emboscadas e ataques na RENAMO nas principais estradas e localidades remotas no centro e norte do país, além de acusações mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos e graves denúncias de abusos de direitos humanos.

Mosambik RENAMO Afonso Dhlakama (picture alliance/dpa/A. Silva)

Afonso Dhlakama, líder da RENAMO

 Associada a "paz", a palavra "diálogo" ficou em sétimo, com 5%, numa referência às negociações entre Governo e RENAMO em Maputo, na presença de mediação internacional, mas ainda sem resultados.

Num ano de guerra e crise económica, a segunda palavra escolhida acaba por ser surpreendente, "mamparra" (idiota, parvo, no calão usado no sul de Moçambique), com 17%, por não ter relação direta com nenhum daqueles assuntos, nem ficar claro se os votantes pensaram em alguém em particular ou se a designação está apenas na moda.

Mais previsível era "crise", colocada no terceiro lugar com 16%, quando em 2016 Moçambique sofreu uma queda vertiginosa da moeda nacional, em proporção inversa à subida da inflação, e ainda a descida das exportações, falta de divisas e forte redução do apoio externo e investimento estrangeiro.

O tremendo aumento do custo de vida estará também associado à escolha da palavra "solidariedade", no oitavo lugar, com 5%, num ano que ficou ainda marcado pelo escândalo das dívidas escondidas.

"Dívida” no quinto lugar

Schiffe von EMATUM in Mosambik (EMATUM)

Barcos da EMATUM, no porto de Maputo

"Dívida" surge em quinto lugar na lista, com 8%, após ter sido revelado em abril de 2016 a existência de avultados empréstimos para fins de defesa, garantidos pelo Governo à revelia da Constituição e do parlamento.

A descoberta de 1,4 mil milhões de dólares a favor de duas empresas estatais, somando-se a um caso semelhante mas que já tinha sido tornado público, de 850 milhões de dólares para a Empresa Moçambicana de Atum (EMATUM), levou à interrupção dos financiamentos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos doadores do Orçamento do Estado e colocou a dívida pública a níveis insustentáveis.

"Educação" figura no sexto posto, com 8%, sinalizando uma preocupação com um setor crónico de Moçambique, onde, apesar de progressos nos últimos anos, cerca de 20% das crianças continuavam fora do primeiro ciclo em 2014, os casamentos prematuros e a guerra também vedaram o ensino a milhares de alunos, e 40% da população permanecia analfabeta, segundo dados de 2011.

Outros dois vocábulos, "tchilar", no quarto lugar (11%), e "txunar" no nono (3%) são expressões mais uma vez associadas à linguagem de rua, e muito usadas nas campanhas publicitárias, a primeira com a conotação de divertimento e a segunda com significados diversos, entre fazer, organizar ou aprontar-se, numa referência a uma presumível origem da palavra num tipo de jeans femininas chamado "txuna baby".

"Liberdade”

Angola Demonstration (DW/M. Luamb

Ativistas protestam em Angola (2015)

A lista das dez palavras do ano é encerrada por "liberdade" (3%), num ano que ficou igualmente assinalado por assassínios de políticos, agressões a académicos, intimidações a jornalistas e líderes de opinião e até desincentivos públicos à participação numa manifestação contra a guerra e a crise.

A escolha da "Palavra do Ano” foi realizada pela Plural Editores Moçambique, "através da análise de frequência e distribuição de uso das palavras e do relevo que elas alcançam", tanto nos meios de comunicação como nas redes sociais, e que tem em consideração também as sugestões dos moçambicanos no site da iniciativa.

 Em Angola, a Plural Editores está presente em há cerca de dez anos e atua sobretudo na área da Educação, contando com mais de uma centena de títulos editados exclusivamente para o mercado angolano, que representa 25% das vendas totais do grupo.

De acordo com o grupo português, o objetivo da iniciativa "Palavra do Ano" é evidenciar a riqueza e o dinamismo criativo da língua portuguesa, chamando a atenção para a importância que as palavras têm no quotidiano.

 

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