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Angola e Portugal “condenados” ao entendimento

João Carlos (Lisboa)7 de novembro de 2013

Angolanos e portugueses consideram que as relações entre os dois povos são históricas e pedem aos respetivos governos que trabalhem juntos para a reconciliação.

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Foto: DW/J. Carlos

Poucos dias após a vandalização da Embaixada de Angola em Lisboa por desconhecidos (3/11), cidadãos angolanos e portugueses ouvidos pela DW África exortam os governos de Luanda e Lisboa a ultrapassarem o diferendo político-diplomático. Em causa está a parceria estratégica, questionada pelo Presidente José Eduardo dos Santos no seu recente discurso à Nação. As opiniões são unânimes: as relações bilaterais são demasiado valiosas para serem colocadas em risco.

A DW África foi ao encontro de utentes dos serviços consulares da Embaixada de Angola em Lisboa, que estão a funcionar com normalidade. Cidadãos portugueses que aqui chegam para tratar de documentos ou pedir visto de entrada no país são atendidos sem qualquer entrave, como confirma Manuel Carvalho: “Sim, estive lá dentro e fui bem tratado” Nuno Batista concorda: “Não tive problemas nenhuns. Demorou um bocadinho, mas é normal”.

Relações bilaterais sofreram um revés

Entre os portugueses que estão em vias de deixar Portugal em busca de uma oportunidade em Angola por causa do desemprego, Nuno e Manuel desvalorizam o diferendo de natureza política que prejudica as relações entre os dois países. O primeiro afirma: “Penso que esta crise política é mesmo isso: política. Nada mais, nada menos. É assim: tensões, são os políticos que as criam” E o seu colega afirma: “Isso é lá entre os dois governos, mas eu acho que não tem nada a ver. Vão muitos portugueses para Angoal. Ainda ontem (a Embaixada) estava cheia”.

** FILE ** Portuguese soldiers are on watch at a village near Carmona, in northern Angola, November 14, 1963. A groundbreaking television documentary series currently being aired is confronting Portugal with unsettling aspects of its recent history.(ddp images/AP Photo/don Royle)
Desde a independência de Angola em 1975, as relações entre os dois países passaram por várias fases de crispaçãoFoto: AP

Na perspetiva de Lisboa, as relações bilaterais luso-angolanas não deterioraram. Mas, segundo analistas, elas sofreram um revés com a polémica que se instalou nas últimas semanas em torno da investigação do Ministério Público português a altas figuras da elite política angolana.

Um acordo é preciso

No discurso do Estado da Nação, proferido no passado dia 15 de outubro na Assembleia Nacional, o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, afirmou que «têm surgido incompreensões ao nível da cúpula» em Portugal e que «o clima político atual não aconselha à construção da parceria estratégica anunciada».

O empresário angolano, Inocêncio Almeida que, há sete anos viaja entre Lisboa e Luanda em negócio, tem Portugal como um mercado importante. Por isso, adverte, não faz sentido este diferendo: “Porque nós continuamos a fazer negócio com Portugal. Politicamente eles que se entendam”. Inocêncio Almeida realça a ligação histórica entre Portugal e Angola: “Acho que os dois governos deviam chegar a um acordo e resolver algumas coisas que estão pendentes”. Pessoalmente, confirma o homem de negócios angolano, não tem tido muitas dificuldades na obtenção de vistos de entrada para Portugal

Isabel dos Santos
A filha do Presidente angolano, Isabel dos Santos, considerada por alguns a mulher mais rica de África, tem investimentos de monta em Portugal.Foto: picture-alliance/dpa

“Portugal precisa de Angola, Angola precisa de Portugal”

Filipe Lukundu, músico angolano conhecido por Príncipe Venâncio, vive há 16 anos em Portugal. Na sua opinião “é preciso haver transparência e respeito mútuo. Portugal precisa de Angola, Angola precisa de Portugal”. Acrescenta que os angolanos têm que pensar no futuro, e esse não passa por “bloquear a situação”. E Álvaro Lopes, português empregado numa tabacaria com vontade de emigrar para Angola, pede: “Acima de tudo a reconciliação e que sobretudo que não haja problemas nenhuns entre Portugal e Angola, porque nós precisamos tanto de Angola, como Angola precisa de nós.

Há dias, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal afirmou que «as relações entre os dois países nunca deixaram de ser normais» e que «as pequenas coisas com Angola têm solução». Mas, prudente, Rui Machete tem evitado comentários sobre as dúvidas à volta da realização da cimeira bilateral ao mais alto nível, inicialmente prevista para fevereiro de 2014.

Condenados ao entendimento

Buchvorstellung O Poder Angolano em Portugal
Há especialistas portugueses que criticam as atividades económicas de Angola em Portugal.Foto: DW/J. Carlos

Abordado pela DW África, à margem do VI Congresso Internacional da África Lusófona, o seu antecessor socialista no Governo de José Sócrates, Luís Amado, considera que os dois países estão condenados a entenderem-se para ultrapassar este contencioso: “No fundo, no longo prazo, tendo em conta as mudanças profundas que estão em curso do ponto de vista estrutural, quer na economia, quer no sistema político internacional, essas relações são de extraordinária importância, e seguramente serão valorizadas a seu tempo, quer por Portugal, quer por Angola também”.

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