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Moçambique

É preciso "muita arte" para aproximar FRELIMO e RENAMO

O antigo mediador Lourenço do Rosário diz que o baleamento do secretário-geral da RENAMO poderá prolongar a instabilidade no país, prejudicando a abertura de portas para o diálogo.

O baleamento do secretário-geral da RENAMO, Manuel Bissopo, "vem perturbar alguma abertura de portas" para o diálogo com o Governo da FRELIMO, considera Lourenço do Rosário.

O antigo mediador nas negociações entre o Executivo moçambicano e o maior partido da oposição salienta que, hoje em dia, será muito difícil aproximar as duas partes: "Os níveis de confiança estão muito deteriorados", afirma Rosário em entrevista à DW África, sublinhando também que "não tem condições" para voltar ao seu papel de mediador.

O secretário-geral da RENAMO foi

baleado

na quarta-feira passada (20.01), na cidade da Beira, centro de Moçambique, e, segundo o partido, registou "melhoras".

A RENAMO responsabilizou de imediato a FRELIMO pelo baleamento. Em entrevista à agência de notícias Lusa, o líder do partido da oposição, Afonso Dhlakama,

acusou o partido no poder

de fomentar "terrorismo de Estado" e admitiu que a atual crise política se podia deteriorar. Por sua vez, a FRELIMO deplorou o baleamento, afastando motivações políticas.

A polícia de Moçambique garantiu que está a investigar o caso.

Lourenço do Rosário Mosambik

Lourenço do Rosário, académico moçambicano e ex-mediador do diálogo entre Governo da FRELIMO e RENAMO

DW África: O baleamento do secretário-geral da RENAMO, Manuel Bissopo, pode, como diz Afonso Dhlakama, deteriorar a atual crise política em Moçambique?

Lourenço do Rosário (LR): Sem dúvida, é um fator negativo dentro deste clima político no país, que não é bom. Este baleamento vem perturbar alguma abertura de portas, quer por parte do líder da RENAMO, quer do Presidente da República, Filipe Nyusi. Ao mesmo tempo que o clima não estava bom, o líder da RENAMO dizia que estava disposto a dialogar, indicando inclusivamente o Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, e a Igreja Católica para continuar o processo de mediação. Por outro lado, o chefe de Estado também dizia que estava disponível para continuar a prosseguir a paz como o seu objetivo principal. Portanto, as portas estavam abertas, apesar de, simultaneamente, Afonso Dhlakama dizer que, em março, iria governar à força.

DW África: Acha que haverá tendência para uma radicalização de posições?

LR: Nem o Presidente da República, nem o líder da RENAMO privilegiam a radicalização das posições. Eles não privilegiam a guerra como uma saída para esta crise. Agora, sem dúvida que há muitos "ruídos" no meio disto tudo que nos provocam uma certa perplexidade.

DW África: Quando fala em ruídos, refere-se a quê, em concreto?

LR: Falo concretamente deste tipo de violência: ataques e baleamentos, por um lado. Depois há o cenário dos raptos… Há uma série de focos de instabilidade no país e não sabemos o que constitui o conflito político-militar e o que constitui outros focos oportunistas desta instabilidade.

DW África: Mas acha que pode haver uma espiral de violência?

LR: Não me parece. Houve, de facto, reações emotivas no momento do baleamento do secretário-geral, mas, a partir daí, tem havido alguma ponderação. O partido no poder condenou o ato; o Governo prometeu investigar – mensagens que me parecem importantes para esta incerteza que se está a viver. Pessoalmente, não acho que, por causa disto, haja uma espiral de violência no país. O que pode acontecer é prolongar-se um pouco mais esta situação de instabilidade.

DW África: A retomada do diálogo entre a FRELIMO e a RENAMO é mais difícil hoje do que em outubro, por exemplo, quando a polícia cercou a casa de Afonso Dhlakama, na cidade da Beira?

Ouvir o áudio 03:45

É preciso "muita arte" para aproximar FRELIMO e RENAMO

LR: Acho que sim, porque os níveis de confiança estão muito deteriorados. É extremamente complicado criar as plataformas necessárias. É preciso muita arte para que, de facto, as pessoas voltem a sentar-se.

DW África: Quem poderia mediar nesta crise, depois de a RENAMO rejeitar os mediadores nacionais, incluindo o senhor?

LR: Bom, eles propuseram já o Presidente Zuma e a Igreja Católica. O Governo ainda não se pronunciou. Mas, de qualquer maneira, penso que seria uma boa saída, embora ache que o Governo não quer internacionalizar este processo. Apesar de o Presidente Zuma estar mais próximo da FRELIMO, acredito que o Governo iria privilegiar ainda uma solução nacional em termos de mediação. Isso não sei - nós não fomos oficialmente notificados – foram pronunciamentos públicos. Nós consideramos que o nosso papel já foi ultrapassado. Neste momento, já não temos condições para continuar.

DW África: Portanto, não se vê a continuar a mediar o diálogo?

LR: Repare… Houve a nossa intervenção para ir buscar o líder da RENAMO, e fomos acusados de ser coniventes com o Governo. E não houve, por parte do Governo, um desmentido oficial relativamente a isso, o que significa que não temos condições, de forma nenhuma. Não podemos provar a nossa inocência por meios próprios. Criou-se uma situação um bocado complicada.

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